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Caso dos e-mails. Adão Mendes confessou ao DCIAP que usava “padres” para se referir a árbitros


Inquirido como testemunha no processo dos emails do Benfica, Adão Mendes justificou a linguagem em código por ser um hábito antigo de secretismo dos tempos em que o Conselho Arbitragem exigia confidencialidade “aquando das nomeações”

O antigo árbitro de futebol e ex-observador da FPF e da Liga Portugal Adão Mendes, ouvido como testemunha pelo Departamento Central de Investigação e Ação Penal (DCIAP), em janeiro último, no âmbito caso dos e-mails do Benfica transmitidos pelo Porto Canal, confirmou ter assistido a alguns programas do ‘Universo Porto da Bancada’, entre abril e outubro de 2017, após ter sido alertado pelo filho que era um dos visados nas revelações semanais de Francisco J. Marques, diretor de comunicação do FC Porto.

À procuradora do processo, Vera Camacho, o árbitro de Braga e um dos que comunicava com o comentador televisivo Pedro Guerra, então ligado à Benfica TV, confessou ter-se sentido “vexado” e “sob suspeita por parte dos seus concidadãos”, numa altura em que era juiz das Festas de Santiago.

No testemunho a que o Expresso teve acesso, Adão Mendes contou que conheceu pessoalmente Pedro Guerra na final da Taça de Portugal, entre o Benfica e o Vitória de Guimarães, em 2913, justificando a posterior e regular troca de emails com o diretor da Benfica TV com a “profissionalização da arbitragem” em curso, a quem dava opiniões por conhecer as regras, a legislação e a terminologia.

Os conselhos de Adão Mendes a Guerra passavam ainda por telefonemas ao domingo à tarde, “de forma a preparar as suas intervenções em programas de televisão”.

Confrontado com o excerto de um email revelado por Francisco J. Marques, Mendes confessou que utilizava uma “linguagem” em que mencionava “padres” e “missas” para se referir aos árbitros e aos locais onde iam decorrer os jogos do Benfica. Ora, isto contraria a decisão do Ministério Público que acusou Francisco J. Marques, diretor de comunicação do FC Porto, de sete crimes – segundo o MP, J. Marques truncou e-mails propositadamente de forma a passar a ideia de que o Benfica controlava as arbitragens. Para o MP, os “padres” eram os comentadores de TV.

As mensagens em código foram justificadas por Adão Mendes à procuradora por “questões de confidencialidade”, um hábito entranhado que titulou de antigo, por o Conselho de Arbitragem exigir confidencialidade “aquando das nomeações”.

Na inquirição judicial, Adão Mendes defendeu ainda que os nomes de árbitros indicados nas mensagens dirigidas a Pedro Guerra, entre os quais Manuel Mota, “eram mencionados por terem uma profissão por conta própria e condições favoráveis para serem profissionais no futebol”, contrariando a tese que se tratavam de árbitros afetos à causa encarnada.

Da esfera do clube da Luz, o árbitro de Braga estendeu ainda os seus préstimos a Paulo Gonçalves, arguido no caso dos emails, que Adão Mendes referiu ter conhecido quando ainda era jurista no Boavista e que veio a reencontrar na dita final Taça de Portugal.

Ficou então com o endereço de email do ex-responsável pelo departamento jurídico do Benfica “por causa de um cartão que este lhe deu com contactos”, mas avançou que só o contatou por precisar de um advogado para tratar de um recurso na área desportiva para o filho.

No depoimento, Adão Mendes garantiu que Paulo Gonçalves apenas lhe indicou uma advogada do Porto – as despesas foram “asseguradas por si” -, o filho perdeu o processo e deixou de ser árbitro. Nos emails lidos e comentados por J. Marques no Porto Canal, o antigo árbitro negou a ideia que foi de que o filho “ganhou tudo, quando perdeu os recursos todos”. Questionado ainda se o filho foi candidato a árbitro assistente, confirmou a intenção, mas relevou ter chumbado nas provas, alegando que no programa passaram a “imagem que teve ajuda”.

No final do testemunho, garantiu que após a divulgação dos polémicos emails não voltou a falar com “alguém do Benfica”, por ter ficado “sem vontade de ter contato com o tema”, depois de ter estado tanto tempo desligado do futebol.

A ACUSAÇÃO DO MP

Recorde-se que Francisco J. Marques foi acusado de sete crimes por divulgar no Porto Canal conteúdos de e-mails internos do Benfica, após ter revelado ilegalmente 55 mensagens em vinte programas do programa ‘Universo Porto da Bancada’.

Na acusação do Ministério Público, a que o Expresso também teve acesso, Francisco J. Marques é acusado de truncar os emails. O documento é, aliás, específico na questão dos “padres”, garantido que a referência ao suposto controlo da arbitragem por parte do Benfica surgiu numa troca de emails entre Adão Mendes e Pedro Guerra, quando ambos abordavam a questão dos comentadores da TV.

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