Villas-Boas e a mística do Dragão: «Não podemos ter um benfiquista no marketing»
Se há coisa que André Villas-Boas não esconde desde que assumiu a presidência do FC Porto é a obsessão por blindar a alma e a mística do clube. Numa conversa descontraída mas cheia de mensagens fortes no The Obi One Podcast, conduzido pelo seu antigo jogador no Chelsea, John Obi Mikel, o líder portista abordou o modelo de governação dos azuis e brancos e deixou uma garantia que está a dar que falar: nos corredores do Dragão, a paixão pelo clube é critério obrigatório de contratação.
Para Villas-Boas, a condição de clube detido exclusivamente pelos seus associados é a grande fortaleza dos dragões num futebol cada vez mais dominado por fundos de investimento e multimilionários. Contudo, essa força depende diretamente de quem veste a camisola no dia a dia dos escritórios e dos gabinetes.
«Temos de proteger quem somos»
«Não há muitos clubes de associados no mundo neste momento. Competimos de forma desigual com clubes que têm vários donos e que são muito ricos, mas os clubes de sócios têm uma vantagem competitiva: sabemos onde estamos, o que somos e temos a nossa própria história e cultura, construída pelos associados», começou por explicar o dirigente portista.
Foi a partir dessa premissa que Villas-Boas traçou uma fronteira bem vincada em relação aos modelos de gestão mais corporativos e desapegados: «Independentemente de quem for o presidente, será sempre o responsável por dar continuidade a esta cultura. No FC Porto, os funcionários são portistas desde que nasceram. Noutros clubes, muitas vezes os departamentos são liderados por pessoas de fora, que pensam fora da caixa mas não têm o conhecimento cultural para comunicar com quem ama o emblema. Nós não funcionamos assim. Todas as pessoas que trabalham aqui são portistas. Não podemos ter um benfiquista a trabalhar no departamento de marketing, por exemplo. Temos de proteger a nossa cultura, a nossa história, o que representamos e o que somos».
O fosso para a Premier League
Além da defesa intransigente da identidade azul e branca, a conversa com Obi Mikel e com o jornalista Chris McHardy serviu também para o presidente dos dragões recordar o fosso financeiro cavado pela Premier League. Como exemplo prático dessa desigualdade no mercado de transferências, Villas-Boas apontou a tentativa frustrada de contratar Caleb Yirenkyi ao Nordsjaelland. O médio ganês esteve nas contas portistas, mas acabou por rumar a Inglaterra, garantido pelo Coventry City após uma oferta financeira inalcançável para a realidade portuguesa.
Entre o peso da história e o realismo do mercado, o recado de André Villas-Boas ficou bem entregue: para gerir e comunicar o FC Porto moderno, a competência profissional tem de andar de mãos dadas com o ADN portista.
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