Crónicas

O Tribunal do Dragão: Entre os paninhos quentes e a realidade


Ser portista é um privilégio sem igual. É ser adepto do clube que mais títulos festejou no séc. XXI, com a proeza à mistura de sermos recordistas de presenças na Liga dos Campeões, a par de Real Madrid e Barcelona (temos mais presenças do que, por exemplo, Benfica e Sporting juntos), conquistámos 3 troféus internacionais numa década e somos casa onde nasceram ou cresceram alguns dos melhores jogadores do mundo. Um adepto que esteja insatisfeito com o FC Porto é um adepto que nunca estaria satisfeito com clube nenhum.

E a verdade é que não ganhamos nada desde agosto de 2013. É muito tempo para o FC Porto, sobretudo pela forma como nos habituamos a ganhar e festejar sistematicamente todas as épocas. A questão é: era possível fazer mais nesse período?

Em 2013-14 tivemos assumidamente a pior época da era Pinto da Costa. Em contraste, apanhámos um Benfica muito forte, que nos bateu em duas meias-finais e no campeonato não nos deu hipóteses na segunda volta. Quando um clube tem a pior época em 30 anos, o normal é assumir um ano zero. Mas a exigência e historial do FC Porto não permitiu isso. A partir do momento em que perdemos o campeonato em 2013-14, já estávamos a pensar em ganhar o título no próximo ano.

No FC Porto ninguém suporta a ideia de estar um ano sem ganhar nada. Isso é bom. Mas achar que ganhar é automático é mau. Perdemos a Taça da Liga, como sempre a perdemos, quer com Jesualdo, AVB ou Vítor Pereira. Na Taça de Portugal, perdemos um jogo onde o grau de dificuldade é mais alto: um clássico. Perdemos por culpa própria, treinador e jogadores. Qualquer equipa tem maus jogos em todas as épocas, para o FC Porto calhou ser um jogo que custou uma competição e que o Sporting não repetirá tão cedo no Dragão. Prova disso é que quando lá voltou, foi bem dif3r3nt3.

E agora há o campeonato. Estamos a 3 pontos do Benfica. A balança da sorte com as arbitragens em momentos-chave da época seria mais do que suficiente para anular estes três pontos e inverter os pratos. Em condições normais, sem todos os episódios que vão sendo aqui relatados quase em vão da Liga Aliança, o FC Porto seria líder do campeonato, confortável, e provavelmente ia à Luz para jogar para o xeque-mate.

Mas há algo que não podemos ignorar, que é agora termos uma concorrência muito forte a lutar por títulos. Desde que Jorge Jesus entrou no Benfica, o rival passou a ter orçamentos ao nível dos do FC Porto, jogadores de classe mundial, um treinador com um estilo de jogo que nunca ganhará na Europa mas em Portugal é difícil de parar, e uma estrutura com crescente influência nos órgãos de decisão do futebol português. Esta é a primeira vez em mais de 30 anos que o Benfica está a lutar por um bicampeonato. Foi muito tempo, daí que qualquer adepto do FC Porto se tenha habituado à ideia de que o FC Porto nunca estará 2 anos sem ser campeão. Está nas nossas mãos evitar que isso aconteça, mas não podemos engolir a ideia de que ganhar títulos é fácil e automático e que não estamos a competir com um rival fortalecido, cuja maior força na luta por este campeonato nem tem sido futebolística.

O que tem feito o FC Porto de Lopetegui no campeonato? Tem mais 12 pontos do que o ano passado, mais pontos do que em qualquer época do tetra Co Adriaanse-Jesualdo, apenas menos um ponto à 29ª jornada que o FC Porto campeão europeu com Mourinho. Temos a melhor defesa dos últimos 20 anos e a melhor defesa das Ligas europeias. Em termos de ataque, temos o terceiro melhor ataque dos últimos 20 anos. O treinador e o plantel já têm meses de trabalho, por isso já cansa dizer que é um ano com muita gente nova, mas repita-se mais uma vez: novo treinador, novo plantel, novas realidades, tempo para crescer.

Domingo vamos à Luz disputar o jogo mais difícil da época, um jogo onde temos de ganhar por 2 golos para dependermos de nós. E para quem não sabe: em toda a história do campeonato, só por uma vez o FC Porto ganhou por mais de um golo em casa do Benfica. Foi em 1951, por 2-0 (obra de Monteiro da Costa).

Logo, exigir à equipa de Lopetegui que vença por mais de dois golos na Luz, coisa que em 80 anos na história do FC Porto só aconteceu uma vez, é extremamente ingrato. Querem resumir o trabalho de Lopetegui e a definição do seu futuro a um resultado que, em 80 anos, só aconteceu uma vez? Isso é que é exigência. Uma exigência que, em 80 tentativas, o FC Porto só cumpriu uma vez.

Que temos que fazer? Lutar com tudo pelos três pontos. Fazer um bom jogo, um jogo bem conseguido, onde evidenciamos as nossas qualidades e tentamos anular as do adversário. Em suma, fazer tudo o que fizemos contra o Bayern na primeira mão. Ou ter a eficácia que não tivemos no FC Porto x Benfica da primeira volta. Agora, exigir que o sucesso da época seja refém da obtenção de um resultado que, com base no historial, tem 1,25% de hipóteses de acontecer? Não contem com disposição para isso. A única coisa que podemos pedir é que Lopetegui e os jogadores deixem claro que fizeram o que estava ao seu alcance para lutar pelo objectivo. FC Porto e Benfica jogam para título, no final só um vai festejar. De um lado o céu, do outro o inferno.

Falámos da Taça da Liga, da Taça de Portugal, do Campeonato. Sobra a Champions. E mais uma vez temos que destacar a grande Champions que o FC Porto fez, tão boa que fez alguns adeptos acreditarem/pensarem que o FC Porto tinha algum tipo de favoritismo/obrigação para eliminar o Bayern Munique. Não tinha, nunca teve. Recordando o que foi escrito após o 3-1 da primeira mão: «Uma equipa que tenha dois golos de vantagem em Munique só tem uma coisa garantida: vai levar massacre». Não resistimos a esse massacre, mas voltámos a fazer história na Europa.

Perguntinha: quantas vezes um clube português ganhou um jogo dos quartos-de-final da Liga dos Campeões? Duas. Ambas o FC Porto. Uma ao Lyon, por 2-0, em 2004. E esta, com Lopetegui, ao todo-poderoso Bayern, por 3-1. Qualquer adepto preferia ir às meias-finais. Mas a verdade é que esta foi a maior vitória de um clube português num jogo dos quartos-de-final da Champions desde que a Taça dos Campeões Europeus foi substituída. E foi conseguida com um mérito e brilhantismo que nenhum 6-1, em casa da equipa mais forte da Europa, pode apagar. E ainda há quem se preocupe com o que adeptos dos rivais possam dizer da eliminatória com o Bayern. Meus caros, se tiverem algum amigo benfiquista ou sportinguista que saiba o que é ganhar um jogo dos quartos-de-final da Champions (no caso do Sporting, lá chegar), façam favor de apresentá-lo. E já agora, estar em 11 jogos de Champions sem perder.

Por isso, não. Não aceito que o futuro de Lopetegui e o sucesso do FC Porto em 2014-15 possa ser decidido com base no que vai acontecer no Domingo, na Luz. Mas também tenho a certeza que Lopetegui e os jogadores não aceitam acabar a época sem títulos. Têm 90 minutos para dar uma prova cabal disso mesmo. Apenas mais 90 minutos.

Fonte: Tribunal do Dragão

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