A FC Porto SAD abre a 2 de Novembro uma oferta pública de obrigações a quatro anos e um mês, as «Obrigações ligadas ao sucesso desportivo FC Porto SAD 2026-2030». O juro base é de 5,25 % ao ano e pode subir até 6,00 % se o FC Porto for campeão nacional e chegar à fase de liga da Liga dos Campeões nas próximas épocas. O prospecto foi aprovado pela CMVM a 28 de Outubro. Resumimos o que lá está, com as contas feitas para o investimento mínimo.
O que é
São duas ofertas em simultâneo. A oferta de subscrição é aberta ao público, com cada obrigação a 5 €. A oferta de troca é para quem tem obrigações FC Porto SAD 2023-2026 (taxa de 6,25 %): cada uma pode ser trocada por uma obrigação nova, recebendo ainda 0,15625 € de juros corridos por título, antes de impostos e comissões.
O montante inicial é de até 40 milhões de euros (8 milhões de obrigações), que a SAD pode aumentar por adenda ao prospecto até 10 de Novembro. Segundo o prospecto, o dinheiro serve sobretudo para reembolsar o empréstimo 2023-2026, de 55 milhões, que vence a 7 de Dezembro. A receita líquida estimada é de 38,6 milhões de euros.
A coordenação global é do Haitong Bank. Os colocadores são o ABANCA, ActivoBank, Banco Best, Banco Carregosa, Banco Invest, Banco Montepio, Bankinter, CaixaBI, Crédito Agrícola, Caixa Geral de Depósitos, Haitong Bank, Millennium bcp e novobanco. Nenhum garante a colocação. A SAD pediu a admissão à negociação no Euronext Lisbon, que depende de decisão da Euronext.
A taxa e a subida ligada aos resultados
A taxa base é fixa: 5,25 % ao ano, bruta. A partir do período de juros que começa a 18 de Novembro de 2027, sobe de forma «permanente e irreversível»:
- +0,15 pontos por cada acesso à fase de liga da Liga dos Campeões na época seguinte;
- +0,10 pontos por cada título de campeão nacional.
Contam as épocas de 2026/27, 2027/28 e 2028/29. A participação na Champions desta época não conta, porque foi garantida em 2025/26: o que conta é o apuramento para 2027/28, 2028/29 e 2029/30. No máximo, a subida é de 0,25 pontos por época, o que leva a taxa até 6,00 %. A taxa nunca desce abaixo dos 5,25 %.
Cada subida só vale depois de confirmada oficialmente: pela lista da UEFA dos clubes na fase de liga, previsivelmente no fim de Agosto, e pela homologação da classificação pela Liga, entre Maio e Junho. Se o apuramento ou o título se perderem antes disso por decisão, sanção ou perda de pontos, não há subida. O próprio prospecto diz que os investidores devem considerar a taxa base para efeitos de expectativas de rentabilidade.
Datas, mínimo e juros
- Subscrição: das 8h30 de 2 de Novembro às 15h00 de 13 de Novembro. Até lá, as ordens podem ser alteradas ou revogadas.
- Mínimo: 500 obrigações, ou seja 2.500 €, e depois múltiplos de 5 €.
- Resultados: 16 de Novembro. Emissão, pagamento e entrada em bolsa: 18 de Novembro.
- Juros: semestrais, a 18 de Maio e a 18 de Novembro, a começar em 18 de Maio de 2027. O último juro, de 7 meses, é pago com o reembolso, a 18 de Dezembro de 2030.
- Reembolso: ao valor nominal, de uma só vez, a 18 de Dezembro de 2030. Não há reembolso antecipado por opção da SAD nem do investidor.
- Imposto: retenção na fonte de IRS a 28 %, liberatória para residentes.
Se a procura exceder a oferta, há rateio. As ordens de troca são servidas primeiro e depois as de subscrição. Em cada caso, cada ordem recebe primeiro até 5.000 €, e o resto é atribuído por ordem de entrada no sistema da Euronext (as ordens do mesmo dia útil contam como iguais). Alterar uma ordem equivale a dar uma nova, que perde a antiguidade.
O que rendem 2.500 €
As contas assumem o investimento mínimo mantido até ao fim, com juros de 30/360 como manda o prospecto: sete juros semestrais de 65,63 € e um último de 76,56 € (os bancos podem arredondar um cêntimo).
| Cenário | Juros brutos | IRS (28 %) | Juros líquidos |
|---|---|---|---|
| Taxa base (5,25 %) | 535,94 € | 150,06 € | 385,88 € |
| Todas as subidas (até 6,00 %) | 575,00 € | 161,00 € | 414,00 € |
Pelo prospecto, a taxa de rentabilidade efectiva anual é de 5,32 % antes de impostos e 3,81 % depois, na taxa base. Com todas as subidas, é de 5,69 % e 4,08 %. Estes valores são antes de comissões.
As comissões dos bancos pesam muito num investimento de 2.500 €. A SAD não cobra nada ao investidor, mas os bancos cobram a subscrição, a guarda dos títulos, o pagamento dos juros e o reembolso. O próprio prospecto avisa que, na generalidade dos preçários, só há rentabilidade positiva com pelo menos 500 obrigações mantidas até ao fim se a conta já tiver outros títulos.
Aplicámos os preçários em vigor de dois colocadores, com IVA (23 %) e imposto do selo (4 %) incluídos. Pode haver ainda portes e despesas de expediente.
| Banco e situação | Comissões até 2030 | Ganho líquido | Por ano |
|---|---|---|---|
| Millennium bcp, conta só com estas obrigações | 220,80 € | 165,08 € | 1,62 % |
| Millennium bcp, conta que já paga guarda por outros títulos | 43,68 € | 342,20 € | 3,35 % |
| ActivoBank, conta só com estas obrigações | 205,34 € | 180,54 € | 1,77 % |
| ActivoBank, conta que já paga a comissão mensal | 24,53 € | 361,35 € | 3,54 % |
O ganho líquido são os juros depois do IRS (385,88 €), menos as comissões. O valor por ano é uma média simples sobre os 2.500 € e os quatro anos e um mês, na taxa base.
- Millennium bcp (preçário de títulos de 4 de Maio de 2026): 8 € pela subscrição em oferta pública via internet (12 € ao balcão); guarda de títulos de 9 € por trimestre, durante 16 trimestres (6 € só para quem negociou em bolsa no site ou na app nos três meses anteriores); 2,40 % do juro líquido, com mínimo de 2,50 €, por cada pagamento; 0,35 % no reembolso.
- ActivoBank (preçário de títulos de 1 de Abril de 2025, o publicado à data): a subscrição paga a comissão de bolsa, de 5 € (isenta na primeira ordem de cada mês no site ou na app); comissão de serviço de bolsa de 3 € por mês, durante 49 meses, cobrada por conta e não por título; 2 % por cada pagamento de juros (calculámos sobre o juro bruto; o preçário não diz se é sobre o bruto ou o líquido); 0,20 % no reembolso.
Noutros bancos as contas são outras. Os preçários de todos os intermediários financeiros podem ser comparados no site da CMVM, e cada banco tem de simular o custo antes de aceitar a ordem.
Os riscos que o prospecto aponta
- Capital próprio negativo. A 30 de Junho de 2026, o capital próprio individual da SAD era de −164,7 milhões de euros, para um capital social de 112,5 milhões. A SAD perdeu, assim, mais de metade do capital social, o que obriga a levar o assunto à assembleia geral (artigo 35.º do Código das Sociedades Comerciais). A assembleia é a 30 de Outubro e o conselho de administração não propôs medidas. Em termos consolidados, o capital próprio era de −29,7 milhões.
- Nota do auditor. O auditor (Ernst & Young) deu uma opinião sem reservas, mas com uma secção sobre «incerteza material relacionada com a continuidade». O passivo corrente supera o activo corrente em 191,4 milhões de euros (contas individuais) e 158,4 milhões (consolidadas). As contas foram feitas no pressuposto de que a actividade continua, contando com o apoio dos financiadores e com a venda de jogadores.
- Resultados e dependência de transferências. O resultado líquido consolidado de 2025/26 foi de −21,1 milhões de euros, depois de +41,0 milhões na época anterior. As vendas de jogadores valeram 39 % dos proveitos operacionais.
- Outras dívidas a vencer pelo caminho. Até 2030 vencem também as obrigações 2024-2027 (cerca de 21 milhões, Novembro de 2027) e 2025-2028 (50 milhões, Dezembro de 2028). A partir de Novembro de 2028 começam as amortizações das Dragon Notes, 115 milhões emitidos por uma subsidiária.
- Risco de crédito, sem garantias. As obrigações não têm garantias especiais. Numa insolvência, os obrigacionistas seriam credores comuns e podem perder parte ou todo o capital.
- Liquidez em bolsa. Mesmo cotadas, pode não haver compradores, ou não ao preço que o investidor quer, se precisar de vender antes de 2030.
- Taxa fixa e inflação. Com a taxa fixa, o valor das obrigações em bolsa desce se os juros de mercado subirem, e a inflação reduz o rendimento real.
A SAD defende, no mesmo documento, que os resultados vão melhorar nos próximos exercícios e que tem recursos para continuar a operar. Aponta o encaixe de 65 milhões de euros da parceria com a Ithaka no Estádio do Dragão, as receitas de televisão e patrocínios, e uma média de 90,7 milhões por ano em resultados com passes nos últimos quatro anos.
Obrigações não são depósitos. Não estão cobertas pelo Fundo de Garantia de Depósitos. O Sistema de Indemnização aos Investidores protege contra falhas do banco onde os títulos estão registados, mas não contra o incumprimento da SAD.
As emissões anteriores e a do Benfica
- FC Porto SAD 2023-2026: 55 milhões de euros a 6,25 %, com reembolso a 7 de Dezembro de 2026.
- FC Porto SAD 2024-2027: cerca de 21 milhões a 5,25 %, com vencimento em Novembro de 2027.
- FC Porto SAD 2025-2028: 50 milhões a 5,50 %, com vencimento em Dezembro de 2028.
Em Abril, a Benfica SAD emitiu obrigações 2026-2031 a cinco anos, com taxa fixa de 4,65 % e sem componente desportiva. A oferta passou de 40 para 65 milhões de euros, e a procura foi 1,36 vezes a oferta.
Onde ler
- Prospecto aprovado pela CMVM (PDF, fcporto.pt)
- Comunicado da FC Porto SAD
- CMVM, com o prospecto e os preçários dos intermediários financeiros
- Relatório e Contas 2025/26 da FC Porto SAD
Este artigo é apenas informativo e não é uma recomendação de investimento. Antes de decidir, leia o prospecto e os preçários do seu banco.

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