Crónicas

Somos Rocky? A final do Euro 2016 vista através do filme!

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A saga Rocky é conhecida em todo o mundo como uma das principais referências de filme desportivo, tendo vencido o óscar de melhor filme em 1977 e respetivo globo de ouro na categoria “Drama”. Quem me conhece sabe que sou adepto de futebol, dos saudáveis, e portanto esta vitória enorme e a minha opinião acerca da final não poderia passar incólume. O que tem o filme Rocky II e a final do Euro 2016 em comum? Bom, é mesmo isso que vamos tentar compreender de seguida.

 

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O filme inicia-se quando o nosso herói ultrapassa o seu primeiro teste no boxe profissional com um empate, frente ao campeão em título, Apollo Creed. O júri atribui a vitória a Apollo, numa decisão não unânime que cria polémica nos meios de comunicação social e fãs da modalidade. Um comparativo pode ser traçado com a seleção portuguesa, que apesar de não ter perdido nenhum jogo na fase inicial do torneio (tal como Rocky não perdera nenhum combate) também não saboreou a vitória em nenhum dos três noventa minutos jogados da classificação de grupos.

 

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No filme, Rocky recebe o apoio entusiasta dos fãs do desporto que testemunharam a imagem de um lutador persistente que recusara descansar num tombo para a derrota. No entanto, o campeão em título sente-se ferido no seu orgulho e tenta desvalorizar o adversário invocando palavras como “sorte” ou “milagre” nos seus argumentos, esquecendo-se de que existem palavras que arrastam consigo outras: o termo “Sorte” costuma arrastar “trabalho” e “milagre” tem por hábito arrastar “perseverança”.

 

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A sua arrogância mostra-se como o seu primeiro erro no filme: porque ao atribuir o mérito do adversário à “sorte” está a partir do pressuposto que continua a ser o melhor dos dois – logo recusa toda a análise e aprendizagem que deveria ser retirada do combate onde, enquanto “campeão do mundo”, empatou com “um zé ninguém”. Tal como a comunicação social francesa fez com Portugal, onde à medida que a seleção escalava os degraus para o sucesso se liam coisas como “ Os deuses do futebol são brincalhões! Gozaram bem connosco ao oferecer ao pai Cristiano e aos seus apóstolos um bilhete para as meias-finais da competição (…)” no jornal Le Point do dia 1 de Julho; ou “(…) nos oitavos de final, a seleção provou que é possível chegar aos quartos de final ao jogar de forma bem nojenta.” era o que se lia no 20 minutes no mês de Junho – declaração que obrigou o jornal a apresentar um pedido de desculpas público e a retificar a notícia para algo menos… tendencioso.

 

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E assim foi antes do grande embate. Enquanto a seleção portuguesa treinava duro, montava uma estratégia exequível e analisava minuciosamente o adversário, os jornais tentavam vencer o jogo antes do tempo e fora das linhas. Temiam a fuga do troféu para as mãos de uma nação valente e imortal, que lhes habita o país em grande número e pelos vistos deveria ser bem mais recebida do que o é. Enquanto isso acontecia, nós batíamos duro na carne crua tal como Rocky Balboa no talho de Philadelphia onde o cunhado era funcionário. Treinávamos em silêncio, sem mediatização ou vedetismo. Foi assim que se pisou o campo da final.

 

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À França, aconteceu o mesmo que a Apollo Creed quando subiu aquele ringue. Deparou-se com a equipa que menosprezara e viu-a sedenta de ambição, empenho e vigor. Viu-se frente a um adversário que tinha o “olhar do tigre” e subitamente… entrou em pânico. De repente, a equipa sortuda que não sabia como tinha chegado até aquela final aguentara noventa minutos sem sofrer golos, em pé de igualdade com a magnífica seleção francesa. Subitamente, a equipa nojenta surgia imponente apresentando um futebol seguro, com método, tendo como base a entreajuda de todos os elementos e a exploração das melhores qualidades de cada um para assim criar um todo mais forte. Criou várias situações de golo e sofreu outras tantas, porque a França também tinha mérito em estar ali. É, também ela, uma grande equipa.

 

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Perto do final do combate, Rocky vê-se em maus lençóis quando uma excelente combinação de socos de Apollo lhe causa uma temporária perda visual e de locomoção que poderia ter terminado imediatamente com o combate. Porém o herói da película recupera do golpe, abraçando o adversário até ouvir o gongo representativo do final do round de forma a poder ser assistido pela equipa médica. O mesmo se sucedeu com Portugal, quando viu André-Pierre Gignac rematar uma bola ao poste, que por momentos parecia ser um golo certo e o selo final da vitória francesa. Ainda hoje a repetição desse lance me causa arrepios na espinha, daqueles difíceis de expurgar.

 

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E aos cento e nove minutos de tempo de jogo, Éder (improvável ponta de lança, desacreditado por grande parte dos portugueses onde me incluo – não tenho vergonha alguma de o admitir) faz o remate certeiro que colocou Portugal na frente na altura mais oportuna do jogo. A partir daí foi segurar as hostes por mais uns minutos, onde a resistência de jogadores super-heróis como o Pepe já se havia esgotado há muito. Esse foi o último desafio destes atletas, aguentar o sofrimento de um jogo que já se estendia para lá dos limites normais, tentando esquecer que o corpo já havia desistido: agora restava apenas a cabeça para não cometer nenhum erro crasso e gritar-lhe: “só mais um bocadinho!” Assim nos tornámos campeões europeus de futebol de onze.

 

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No final do combate Apollo Creed aceita a derrota como sendo legítima, admitindo o mérito do seu adversário e desejando-lhe boa sorte para os combates de defesa vindouros. É nesta parte que percebemos que a vida não é um filme. Na vida real o lema dos derrotados parece ser evitar cumprimentar os adversários e rejeitar as suas medalhas de prata. É claro que existem exceções, tanto de um lado como do outro, mas estamos a falar de Portugal contra França e não de Cristiano Ronaldo contra Pogba, a exemplo.

 

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Deverá ser estranho para um francês estar a ler este texto e perceber que é o Apollo Creed desta saga de filmes, o que faz com que necessariamente Portugal encarne a personagem do herói Rocky. A única forma de isto ser mais estranho seria eu dizer-vos que todos nós portugueses que assistimos ao jogo (com o coração impiedosamente aos saltos, de forma descontrolada e perigosa dentro do nosso organismo) somos uma Adrian que em casa acompanha o seu Rocky na batalha. É ela o motivo da personagem de Sylvester Stallone se encontrar naquele ringue, e é a si que ele dedica toda aquela conquista. Adrian é a nação que aqueles jogadores defenderam no passado dia 10 de Julho. Foi isso que ouvi Cristiano Ronaldo gritar quando levantou a taça, silenciando por segundos todas as outras vozes que acompanhavam a minha nos Aliados do Porto, pelo meio de lágrimas soltas e insubordinadas à sua vontade: “Adrian! Consegui!”.

Por : André Leitão

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